Covid-19: Comportamentos transformados diante de um inimigo invisível

“Bate o desespero não saber como vou pagar meu aluguel. É terrível abrir a geladeira e não ver nada. É desesperador”. O relato emocionado é da cantora e compositora Soraia Sol, de 31 anos. Antes da Covid-19, a rotina dela era repleta de atividades. Os finais de semana costumavam ser preenchidos com apresentações em bares, restaurantes, eventos particulares. “Vivia 100% da música até a pandemia modificar tudo”, diz.

Foto Felipe Pinho
Cantora Soraia Sol (31) enfrenta dificuldades financeiras por não poder viver da música durante a pandemia. Foto: Arquivo Pessoal

Já são 12 meses de altos e baixos na vida da artista. Por conta do isolamento social, necessário para frear a propagação do vírus, Soraia ficou sem trabalhar durante bastante tempo. Contou com o apoio de amigos e do auxílio emergencial concedido pelo Governo Federal, mas não foi suficiente. Precisou se desfazer de instrumentos musicais, distribuiu currículos com foco em outras funções, porém sem sucesso. Como forma de ter uma renda faz viagens de carro para pessoas conhecidas. No entanto, o pior, segundo ela, é lidar com a ansiedade e a síndrome do pânico, desenvolvidas em 2018, mas que se agravaram muito com a pandemia.

O drama vivenciado por Soraia é semelhante ao de vários outros brasileiros impactados por um ano inteiro de mudanças comportamentais alheias à vontade deles. A professora Danyelle Nilin, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, estuda essa realidade. A pesquisa "A Vida na Quarentena: deslocamentos e aglomerações de pessoas em Fortaleza" coletou informações sobre o isolamento social na capital cearense. Entre as evidências, a desigualdade entre as classes no trato com a pandemia chama atenção.

Estamos falando
de um país
extremamente desigual

De acordo com Nilin, parte das pessoas está em isolamento há um ano enquanto outra nunca conseguiu fazer isso porque os indivíduos realizam atividades que precisam estar na rua ou mesmo não têm acesso à tecnologia para desenvolver ações remotamente. “Estamos falando de um país extremamente desigual. Então, cada classe social lidou com a pandemia de uma forma diferente. Pra quem não perdeu o emprego, por exemplo, essa é uma preocupação inexistente. Pra quem perdeu há o medo de saber como sobreviver”, afirma a professora da UFC.

Unidos em isolamento, mas nem todos...

Apesar dos desafios do ponto de vista econômico, o isolamento social é recomendado pelos especialistas da área médica como um mecanismo indispensável para reduzir a disseminação do novo coronavírus e evitar o colapso das unidades hospitalares diante do alto número de casos simultâneos de Covid-19. Segundo a infectologista Melissa Medeiros, que atua no Hospital São José, referência no tratamento de doenças infecciosas no Ceará, a medida é dirigida à proteção da coletividade. “A gente sabe que o paciente acaba transmitindo a doença três dias antes de desenvolver os sintomas. Nesse momento você já pode estar transmitindo”.

Foto Reunião PGJ Corona Vírus
Melissa Medeiros, infectologista do Hospital São José - (Foto: Tatiana Fortes/Gov. do Ceará)

É fato que o distanciamento salvou vidas de março de 2020 pra cá, apesar da dificuldade de conquistar a adesão das pessoas. O Ministério Público do Estado do Ceará, desde que apareceram os primeiros casos suspeitos de Covid-19, acompanha as ações de enfrentamento ao problema, cobra medidas das autoridades e estimula comportamentos sociais adequados ao momento de pandemia.

O MPCE foi a primeira instituição que recomendou o uso de máscara nos estabelecimentos comerciais e também na administração pública, ainda em março de 2020. Foram feitas, ao longo dos 12 meses que se passaram, fiscalizações pelo Decon para garantir o respeito às normas de proteção nos comércios, nas agências bancárias...

Entre 15 e 20 de maio de 2020, por exemplo, o Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor fiscalizou 14 sedes de bancos para verificar o cumprimento da recomendação de obediência aos decretos de prevenção ao novo coronavírus e, em especial, para evitar aglomerações e formação de filas irregulares dentro e fora dos estabelecimentos. Em oito locais inspecionados houve desrespeito às orientações do Ministério Público do Estado do Ceará. Os trabalhos prosseguiram durante todo o último ano. Tanto que, em fevereiro de 2021, foram feitas novas vistorias em instituições financeiras de Fortaleza.

Foto Reunião PGJ Corona Vírus
DECON fiscaliza aglomeração em filas de agências bancárias (Foto: MPCE)

Devido ao cenário de crise sanitária, O Decon também recomendou a suspensão da venda de ingressos de eventos que promovam aglomeração e, junto com a Promotoria de Defesa da Saúde Pública, orientou o cancelamento de show em um hotel da capital cearense.

Conforme o promotor de Justiça Eneas Romero, coordenador do Centro de Apoio Operacional da Cidadania, do Ministério Público do Estado do Ceará, na época do lockdown o MPCE atuou para cumprir as medidas estabelecidas diante do cenário caótico na rede de saúde. Houve, inclusive, ação na esfera cível, com pedido de dano moral coletivo para quem desrespeitou o decreto, além da busca pela responsabilização administrativa e a instalação de processos criminais.

Na tentativa de conter a proliferação do vírus, barreiras sanitárias foram montadas em várias cidades cearenses, aulas presenciais acabaram suspensas, campanhas informativas precisaram ser executadas. Porém, segundo o consultor da Associação dos Municípios do Ceará (APRECE), Nilson Diniz, de um modo geral, a população não ajudou muito. “Os riscos da doença e as medidas necessárias para sua contenção não foram compreendidos de maneira uniforme. Isso foi também reflexo da falta de unidade no enfrentamento da doença. Municípios, Estados e União deveriam ter falado a mesma língua desde o começo, agindo de forma coordenada e planejada”, disse.

“Os riscos da doença e as medidas
necessárias para sua contenção não foram
compreendidos de maneira uniforme”

O relato do representante da APRECE se comprova nas estatísticas. Monitoramento da empresa de tecnologia da informação In Loco, que projeta a taxa de distanciamento a partir da localização de dispositivos móveis, como aparelhos celulares, mostra que, no Ceará, o índice de isolamento ficou abaixo de 50% na maior parte dos meses de pandemia. O nível mais elevado, 63%, foi verificado no dia 22 de março de 2020. O ideal, conforme epidemiologistas, é um patamar superior a 70%.

Foto Aglomeração Praia dos Crushs
Aglomeração na Praia dos Crushs durante a pandemia - Foto: Thiago Gadelha

Aglomerações por toda parte

Durante a luta contra o novo coronavírus foram recorrentes as cenas de aglomerações em feiras livres, pontos turísticos, corredores comerciais, bares, restaurantes, eventos de campanha eleitoral, transporte coletivo. Todas essas situações receberam atenção do Ministério Público com a adoção de medidas jurídicas.

Foto Contraste do comportamento social
Contraste do comportamento social em momentos distintos da pandemia - Foto: Fábio Lima

Em Juazeiro do Norte, por exemplo, o MPCE recebeu denúncias de aglomeração em bares do bairro Lagoa Seca. A vigilância sanitária foi acionada e, com a ajuda da PM, houve a dispersão das pessoas e a notificação de estabelecimentos.

A promotora de Justiça Alessandra Magda Ribeiro promoveu uma reunião com a Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel), Secretaria Municipal de Saúde, Secretaria de Desenvolvimento Econômico e a coordenação da vigilância sanitária para definir condutas a serem seguidas. Depois disso, segundo a promotora, não foram recebidas mais denúncias.

Foto Desrespeito ao decreto de isolamento social
Desrespeito ao decreto de isolamento social em estabelecimentos de Juazeiro do Norte. Foto: MPCE

O Ministério Público do Estado do Ceará reforçou o combate às festas clandestinas nos diversos municípios. No último mês de fevereiro, os membros que compõem o Grupo de Trabalho que investiga crimes relacionados com a pandemia do novo coronavírus instauraram Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para apurar as responsabilidades dos organizadores de eventos que contrariam as regras de isolamento social previstas nos decretos.

O procurador-geral de Justiça, Manuel Pinheiro, e o Grupo de Trabalho recomendaram que a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social determinasse a reiteração das providências necessárias, por parte da Polícia Militar e da Polícia Civil, para coibir e reprimir festas clandestinas; orientasse os delegados de Polícia Civil a avaliar, em cada caso concreto, a presença dos elementos do tipo do Art. 288 do Código Penal, com vistas ao enquadramento dos organizadores e realizadores das festas clandestinas no crime de associação criminosa; e determinasse a realização de um levantamento dos termos circunstanciados de ocorrência já lavrados e de outros procedimentos já instaurados pela Polícia Civil e pelas autoridades sanitárias, de forma a identificar as identidades de organizadores e promotores de festas clandestinas que tenham praticado o crime do Art. 268 do Código Penal de forma reiterada, de modo a deixar bem caracterizada, conforme o caso, a infração ao Art. 288 do Código Penal.

No último período eleitoral, membros do MPCE das mais diversas comarcas também atuaram para garantir o respeito às normas de distanciamento social. Nas cidades de Campos Sales, Barro, Baixio e Ipaumirim, a Justiça atendeu ações do MP Eleitoral e proibiu eventos com aglomerações. Em Ipueiras, em procedimento do Ministério Público, candidatos acabaram multados por descumprirem regras de enfrentamento à pandemia de Covid-19. Em Nova Olinda e Altaneira, foram firmados acordos com coligações partidárias para evitar encontros com muita gente. Estes são somente alguns casos, já que o trabalho de combate às irregularidades nas eleições se estendeu pelos 184 municípios.

Na questão do transporte coletivo em Fortaleza, por exemplo, o MP recorreu à Justiça para que a frota fosse mantida na totalidade e chegou a obter uma liminar, que depois foi derrubada pelo Tribunal de Justiça. O MPCE recorreu e, antes do julgamento, conseguiu um acordo com a prefeitura para ampliar a quantidade de ônibus em circulação nos horários de pico.

Foto Terminais em horário de pico
Terminais em horário de pico registram aglomerações. Foto: MPCE

Ter mais ônibus disponíveis ajuda a amenizar as aglomerações e, consequentemente, a maior exposição ao vírus a que milhares de usuários do sistema são submetidos diariamente. Pessoas como o auxiliar de serviços gerais Francisco Matos. Ele mora no bairro José Walter e trabalha próximo ao Centro de Fortaleza. Diz que esse deslocamento, de aproximadamente 14 quilômetros, é feito sempre em coletivos lotados e acredita ter contraído a Covid-19 em uma dessas viagens. Aos 57 anos e com pressão alta, felizmente não desenvolveu a forma grave da doença.

Aliás, justamente porque nem todos os infectados apresentam sintomas, as mudanças de comportamento são tão fundamentais. Nas ruas, apesar da orientação para fazer uso constante de máscara, é fácil encontrar pessoas sem ela ou utilizando o item de proteção de maneira incorreta: no queixo, sem cobrir o nariz...

Foto Uso inadequado da máscara
Uso inadequado da máscara é frequente. Fotos: MPCE

A infectologista Melissa Medeiros ressalta a eficácia das máscaras, capazes de conter as gotículas lançadas no ar quando alguém fala, espirra ou tosse. Segundo a médica, o acessório ainda fará parte da rotina social por um longo tempo. Afinal, não há remédio específico para tratar a Covid-19 e o processo de imunização deve demorar a atingir uma grande cobertura no país. “A gente estima que precise vacinar pelo menos 1/4 da população. Não dá pra prever, então, quanto tempo vamos demorar. Até quatro anos pra vacinar toda a população brasileira”, pontua.

“Não tocar o outro talvez seja hoje
uma manifestação de respeito e cuidado
maior do que um abraço, do que um beijo”

Diante disso, a especialista reforça a importância de manter práticas de higiene, como utilizar álcool em gel, e, principalmente, o distanciamento social, mesmo após 1 ano de pandemia. Há a necessidade de alterar hábitos antigos. “Nós somos um povo que toca. Não tocar o outro talvez seja hoje uma manifestação de respeito e cuidado maior do que um abraço, do que um beijo”, afirma dra. Melissa.

Adaptações no convívio social

O jeito de conviver uns com os outros, realmente, mudou bastante no último ano. Além dos beijos e abraços que passaram a ser dispensados, encontros ficaram restritos a um número reduzido de pessoas; as aulas virtuais ganharam força; os espetáculos de arte ou mesmo celebrações religiosas viraram lives na internet; formaturas, casamentos e aniversários começaram a ser promovidos de maneiras distintas, como em carreatas na frente das casas dos homenageados e transmissões ao vivo. Até as consultas médicas foram adaptadas com a telemedicina.

Foto Coronavírus modifica relações interpessoais
Coronavírus modifica relações interpessoais. Foto: Banco de Imagem/Vecteezy

O mercado de trabalho foi impactado pelo home office. Segundo a psicóloga organizacional Bruna Marçal, há anos já se falava da economia que empresas teriam mantendo colaboradores em atividades remotas. O coronavírus antecipou qualquer estudo e tornou o formato viável. A especialista acredita que este será “um meio de produzir por bastante tempo, seja ele por opção ou por necessidade diante do cenário ainda tão incerto de pandemia”.

Bruna destaca como ponto positivo do home office a possibilidade de manter os profissionais mais motivados por desempenharem funções no aconchego do lar, perto da família, com horários mais adaptáveis. “Por outro lado, para ter esse desempenho e alcançar, de fato, o nível de responsabilidade que o home office requer, é necessário um possuir perfil que se adeque e cumpra um planejamento do tempo”, relata.

Já para a professora de Ciências Sociais, Danyelle Nilin, o home office criou uma dificuldade de separação sobre o que é a vida profissional e a vida doméstica. “O que é da casa e o que é do trabalho? Há uma sensação de esgotamento entre as pessoas. Os impactos só poderão ser percebidos ao passar do tempo”, conclui.

Foto Mudanças de Comportamento Durente a Pandemia
10 Mudanças de Comportamento Durente a Pandemia

A onda do negacionismo

As transformações comportamentais vistas ao longo de 1 ano de pandemia passam também pelo avanço do fenômeno conhecido como negacionismo. Enquanto muitos aderiram aos protocolos de biossegurança estabelecidos, outros decidiram ignorá-los.

O militar de 37 anos, que optamos por identificar somente pelas iniciais F. S., reconhece que teve um comportamento negacionista. Ele confirma que no auge da crise não se cuidou como deveria. “Não usava máscara. Não acreditei na existência dessa doença. Achava que era mentira, apesar de sair em todos os noticiários. Pensava que só pegava em outras pessoas e se eu pegasse não ficaria tão mal”, revela.

“Pura ignorância minha”

A confiança de que não seria atingido, porém, acabou frustrada. F.S. foi acometido pelo vírus de maneira severa. Teve 70% de comprometimento dos pulmões. Precisou ser internado em leito de UTI por 11 dias. Houve a necessidade de receber suporte de oxigênio. A recuperação foi lenta. Como sequela ficou a insuficiência respiratória, mas ele conseguiu vencer a Covid-19 e mudar de pensamento. “Hoje vejo que a doença é bastante séria e que podemos evitá‐la. Basta seguir as recomendações necessárias. Usando a máscara e evitando aglomerações. Cuidados estes que não tomei. Pura ignorância minha”, destaca.

Foto Com as mãos nos exames
Com as mãos nos exames, F.S. afirma que desacreditou da Covid-19, mas mudou de pensamento após ser infectado. Foto: Arquivo Pessoal

A psicóloga Scheylla Riedmiller ressalta que o ser humano precisa ter empatia com os demais nesse momento para evitar a disseminação do vírus. Ela afirma que o negacionismo vem da falta de habilidade de muitos brasileiros em respeitar regras e da crença de que pode dar um jeitinho em tudo para não se prejudicar pessoalmente. A especialista enfatiza que “a segurança de cada um de nós está nas mãos de todos nós”.

Rodapé 1 Ano de COVID-19